SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A crise gerada pela fracassada tentativa da Fifa (Federação Internacional de Futebol) de abertura ao capital privado teve novos episódios relevantes no início desta semana. A entidade que rege o futebol agiu em duas frentes: enviou carta diplomática às confederações continentais e respondeu agressivamente ao processo movido por uma delas, a Uefa (União das Associações Europeias de Futebol), nos Estados Unidos.
Na segunda parte, o presidente Gianni Infantino não chegou a surpreender: apontou que a confederação europeia, comandada por Aleksander Ceferin, está empenhada em uma “campanha de desinformação” e adotou medidas judiciais “de má-fé e com o objetivo de assediar”. Na primeira, uma novidade mais concreta, mostrou-se aberto a usar parte do polpudo fundo da Fifa para irrigar as 211 federações nacionais.
A disposição foi anunciada em uma mensagem na qual tratou pelo primeiro nome os seis presidentes das confederações. “Caro Salman, caro Alejandro, caro Vittorio, caro Aleksander, caro Lambert e caro Patrice”, diz inicialmente Infantino, que lhes agradece pelas sugestões recebidas e sugere colocá-las em prática, submetendo-as ao Conselho da Fifa, com 37 membros.
O movimento foi uma resposta especialmente a Ceferin e a Victor Montagliani, presidente da Concacaf (Confederação de Futebol da América do Norte, da América Central e do Caribe). Eles coassinaram pedido para que a Fifa usasse cerca de US$ 2,1 milhões (R$ 10,96 bilhões) de suas reservas de aproximadamente US$ 6 bilhões (R$ 31,32 bilhões).
Gianni não se comprometeu com um valor específico. Afirmou que instruiu o secretário-geral da entidade, Mattias Grafström, a compilar as propostas para que elas sejam deliberadas na reunião do Conselho, em 15 de outubro. A data é relevante sobretudo pela proximidade das eleições presidenciais da própria Fifa: estão marcadas para 18 de março, mas o prazo para inscrições se encerra em 18 de novembro.
O cálculo de Infantino foi: oferecer parte do fundo da Fifa neste momento poderia soar como compra de votos, mas, como a sugestão partiu justamente de dois presidentes de confederação que manifestaram sua oposição a ele, a ação está bem justificada.
Não que o cartola dependa necessariamente dessa nova distribuição de dinheiro para buscar a reeleição. De acordo com levantamentos de agências internacionais, como a Reuters, ele conta com os votos necessários para permanecer na cadeira que ocupa desde 2016. E, até agora, nenhuma outra candidatura foi anunciada.
O suíço, porém, ainda enfrenta grande turbulência por causa da proposta de criação da FFE (Fifa Football Enterprise), uma empresa que administraria os direitos comerciais de competições como a Copa do Mundo e teria participação minoritária de capital privado. A projeção da Fifa era que essa empresa seria avaliada em US$ 20 bilhões (R$ 104,4 bilhões), com a venda de 20% a investidores.
Anunciado em uma terça, 28 de julho, o plano teve que ser oficialmente abortado na sexta daquela semana. A reação ao que se chamou de “venda da Copa do Mundo” foi amplamente negativa e levou Infantino à sua maior crise. Diversas federações relevantes (como a da Inglaterra e a da França) retiraram seu apoio, e três confederações (a da Ásia, AFC, seguiu o caminho da Uefa e da Concacaf) manifestaram forte oposição.
No modelo de escolha do presidente da Fifa, no entanto, cada uma das 211 associações nacionais de futebol tem o mesmo peso. O voto de San Marino, último colocado do ranking masculino, vale tanto quanto o da líder Espanha. E Infantino faz jorrar dinheiro nas associações menores, assegurando seu apoio.
Ceferin, nesse cenário, consolidou-se como o grande opositor, mas não nas urnas. O presidente da Uefa já avisou que não concorrerá à presidência da Fifa, porém ingressou com uma ação judicial nos Estados Unidos. Em sua resposta, a Fifa apontou que a petição da Uefa “contém inúmeras declarações falsas ou enganosas”.
“Sem qualquer fundamento, a Uefa sugere que o sr. Infantino buscou obter benefício pessoal com a proposta da FFE. Como explicado, o plano da FFE estava sujeito à aprovação tanto das associações-membro da Fifa quanto do Conselho da Fifa, e a FFE estaria sujeita à supervisão de ambos os grupos dentro da Fifa. As alegações da Uefa de que o sr. Infantino violou qualquer lei ou princípio ético são categoricamente desprovidas de fundamento”, diz o documento.
Nesta terça (29), em novo ataque, Ceferin afirmou que “o rei está nu”. Em apresentação na Assembleia Geral de Clubes Europeus, fez longa citação à obra “A Nova Roupa do Rei”, tradicional conto de fadas de Hans Christian Andersen, para descrever a situação de Infantino.
“Talvez a moral da história seja que palavras convenientes não podem mudar realidades incômodas. Recentemente, o futebol mundial tem ouvido algumas palavras muito convenientes: desenvolvimento, democratização, consulta. São palavras usadas, na verdade, para descrever o oposto”, declarou o presidente da Uefa. “Vender parte do futuro do futebol não se transforma em desenvolvimento só porque você diz que é desenvolvimento.”
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Fonte: Notícias ao Minuto


